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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Adão e Eva: origem ou parábola?


Segundo a Bíblia, Deus formou Adão, o primeiro homem, com o barro do chão. De sua costela fez Eva, sua mulher. E logo os colocou em meio a um paraíso fantástico. Ambos viviam nus sem se envergonharem e Deus, pelas tardes, costumava visitá-los e conversar com eles (Gênesis 2).

Esta história, que nos entusiasmava quando éramos crianças, nos coloca em sérias dificuldades agora que somos adultos. A ciência moderna demonstrou que o homem foi evoluindo a partir de seres inferiores, desde o Australopitecus, há uns três milhões de anos, passando pelo Homo erectus, o Homo habilis e o Homo sapiens até chegar ao homem atual. 

Hoje sabemos que o homem não foi formado nem do barro nem de uma costela; que ao princípio não houve apenas um casal, mas vários; e que os primeiros homens eram primitivos, não dotados de sabedoria nem perfeição.

Por que a Bíblia relata desta maneira a criação do homem e da mulher? Simplesmente porque se trata de uma parábola, de um relato imaginário que pretende deixar um ensinamento às pessoas.

Esta parábola foi composta por um anônimo catequista hebreu, a quem os estudiosos chamam de “yahvista”, próximo ao século X A.C. Naquele tempo não se tinha nem idéia da teoria da evolução. Porém como seu propósito não era dar uma explicação científica sobre a origem do homem, mas sim fornecer uma aproximação religiosa, elegeu esta narração na qual cada um dos detalhes tem uma mensagem religiosa, segundo a mentalidade daquela época. Trataremos agora de averiguar o que o autor quis nos ensinar com este relato

Um Deus oleiro 

O primeiro detalhe que chama a atenção é que o texto afirma que o homem foi criado do barro. Diz o Gênesis que no princípio, quando a terra era ainda um imenso deserto, “o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (2,7).

Para entender isto, deve-se levar em conta que os antigos achavam curioso ver que pouco tempo depois de falecida uma pessoa, ela se convertia em pó. Esta observação os levou a imaginar que o corpo humano estava fundamentalmente feito de pó. A idéia se estendeu por todo o mundo oriental, a tal ponto que a encontramos presente na tradição da maioria dos povos. Os babilônios, por exemplo, contavam como seus Deuses haviam amassado com barro os homens; e os egípcios representaram nas paredes de seus templos a divindade amassando com argila o faraó. Gregos e romanos compartilhavam igualmente esta opinião.

Quando o escritor sagrado quis contar a origem do homem, se baseou nesta mesma crença popular, mas agregou uma novidade a seu relato: o ser humano não é unicamente pó: possui em seu interior uma chispa de vida que o distingue de todos os demais seres vivos, porque ao vir de Deus, se converte em sagrado. E isso não acontece somente ao rei ou ao faraó, mas também ao homem da rua. Ele quis dizer isso quando contou que Deus “soprou em seus narizes”. Começava assim a revolucionar a concepção antropológica da época. 

A imagem de um Deus oleiro, de joelhos no chão amassando barro com suas mãos e soprando nos narizes de um boneco, pode nos parecer um pouco estranha. Entretanto, na mentalidade daquela época era uma homenagem para Deus.

De fato, de todas as profissões conhecidas na sociedade de então, a mais digna, a mais grandiosa e perfeita era a de oleiro. Impressionava ver esse homem que, com um pouco de argila sem valor, era capaz de moldar e de criar com grande maestria preciosos objetos: baixelas, copos refinados e lindos utensílios.

O yahvista, sem pretender ensinar cientificamente como foi a origem do homem, posto que não o sabia, quis indicar algo mais profundo: que todo homem, quem quer que fosse, é uma obra direta e especialíssima de Deus. Não é mais um animal da criação, mas um ser superior, misterioso, sagrado e imensamente grande porque Deus em pessoa teve o trabalho de fazê-lo.

A imagem de Deus Oleiro ficou consagrada na Bíblia como uma das mais bem feitas. E ao longo dos séculos reaparecerá muitas vezes para indicar a extrema fragilidade do homem e sua total dependência de Deus, como na célebre frase de Jeremias. “Diz o Senhor: eis que como o barro nas mãos do oleiro, assim sois vós na minha mão” (18, 6).

A solidão do homem

Em seguida aparece no relato uma série de pormenores curiosos e muito interessantes. O relato diz que Deus colocou o homem que havia criado em um maravilhoso jardim, cheio de árvores que lhe dariam sombra e o abasteceriam de saborosas frutas (2, 9). A água é abundante nesse jardim, já que estava regado por um imenso rio, com quatro grandes braços.

Como a vida daquela época transcorria em terrenos desérticos onde a água era tão difícil de conseguir, semelhante descrição despertava seus desejos e dava uma imagem perfeita da felicidade que eles tinham desejado desfrutar.

Porém, de repente, o relato se detém. Algo parece haver saído mal. O próprio Deus pressente que não é muito bom o que fez: “Não é bom que o homem esteja só” (2, 18). O rodeou de luxos e bem-estar, mas o homem não tem ninguém com quem se relacionar.

Ante esta circunstância, diz o Gênesis, Deus busca corrigir a falha mediante uma nova intervenção. Com grande generosidade cria todo tipo de animais, os do campo e as aves dos céus, e os apresenta ao homem para que ponha um nome em cada um e lhe sirvam de companhia (2,19). Contudo, não encontra um companheiro adequado para o homem. Os animais também não parecem ser uma companhia ideal para ele (2, 20). Deus errou de novo?

Após refletir, tentará reparar seu segundo equívoco mediante uma obra definitiva: “Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão, e este adormeceu: e tomou uma das suas costelas, e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher: e trouxe-a a Adão. E disse Adão: Esta é agora osso dos meus ossos, e carne da minha carne: esta será chamada varoa, porquanto do varão foi tomada.” (2, 21- 23).

Finalmente, Deus tem sucesso. Pode sorrir satisfeito porque agora sim conseguiu um bom resultado. O homem encontrou sua felicidade com a presença da mulher.

Os ensinamentos deste relato são profundos:

O primeiro: que a solidão do homem não é boa. Que não foi criado como um ser autônomo e auto-suficiente, mas sim necessitado dos demais, de outras pessoas que o complementem em sua vida, sem elas o mesmo homem “não é bom”. 

O segundo ensinamento está na frase que diz que nos animais Adão “não encontrou uma ajuda adequada”. Quis advertir com ela que os animais não estão no mesmo nível do homem; que não têm sua mesma natureza; e portanto não estava bem que ele se relacionasse com os animais como fazia com as pessoas. 

O terceiro ensinamento pretende explicar que está bem para o homem deixar seu pai e sua mãe, afetos tão sólidos e estáveis naquela época, para se unir a uma mulher. É o primeiro canto da Bíblia ao amor conjugal.

Outro detalhe fascinante é o profundo sono que Deus fez cair sobre Adão antes de criar a mulher. Muitos o interpretam como uma espécie de anestesia preparatória, já que Deus está por intervir cirurgicamente em Adão para extrair uma costela e quer primeiro deixá-lo insensível.

Porém, o sono de Adão tem a ver com a concepção que o autor tinha da ação criadora. Criar é o segredo de Deus. Só Deus o conhece e só Ele sabe fazer. O homem não pode presenciar o ato da criação de Deus. Por isso dorme quando Deus cria. Ao acordar, não sabe nada do que passou. A mulher recém criada também não, pois quando se dá conta de que existe, já foi formada.

Com esta cena a narração adverte que a atuação de Deus no mundo é invisível para os olhos humanos. Somente quem tem fé pode descobri-la. Ninguém consegue contemplar a Deus se estiver dormindo e não despertar a fé.

Um homem e uma mulher

Porém, o momento culminante da narração e de alguma maneira o centro de todo o relato, é constituído pelo detalhe da mulher formada através da costela de Adão.

Nosso autor emprega aqui uma belíssima imagem para deixar aos leitores uma lição grandiosa. Para criar a mulher, Deus não tomou um osso da cabeça do homem, pois ela não está destinada a mandar no lar; mas também não a fez do osso do pé, porque foi chamada a ser servidora do homem. Ao dizer que a cria de sua costela, ou seja, de seu lado, a coloca na mesma altura que o varão, no mesmo nível e com idêntica dignidade.

Tal atrevimento de declarar a mulher semelhante ao varão, deve ter irritado enormemente a seus contemporâneos e sem dúvida constituiu uma idéia revolucionária em sua época. 

O relato termina com um último detalhe sugestivo: “E ambos estavam nus, o homem e a sua mulher; e não se envergonhavam” (2, 25). Mais adiante, quando se desata o drama do pecado original sobre Adão e Eva, dirá: “Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus” (3, 7).

Esta alusão alimentou a imaginação de milhões de leitores ao longo dos séculos e levou a pensar que o pecado original tinha a ver com o sexo. Porém, na realidade, o autor com esta observação só buscava transmitir uma última mensagem a seus leitores, baseado na experiência cotidiana. Nela via como as crianças pequenas andavam nuas sem se envergonharem. Ao contrário, ao entrar na puberdade, percebiam sua nudez e se cobriam. Agora, nessa época coincidia com a idade na qual todos tomam consciência do bem e do mal e são responsáveis pelos seus atos.

O yahvista quis dizer que toda pessoa ao entrar na fase adulta é pecadora e, portanto, responsável pelas desgraças que existem na sociedade. Ninguém pode se considerar inocente frente ao mal que o rodeia nem pode dizer: “eu não tenho nada a ver”. Por isso todos sentem vergonha de sua nudez.

A Bíblia não ensina como foi a origem real do homem e da mulher porque o escritor sagrado não sabia. 

Porém, como vimos, também não interessa contar “como” apareceu o homem sobre a terra, mas “de onde” apareceu. E sua resposta é: das mãos de Deus. 

O “como” os cientistas devem explicar. O “de onde” o responderá a Bíblia. E algo mais profundo: que todo homem, quem quer que seja, é uma obra direta e especialíssima de Deus.

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P. Ariel Álvarez Valdez é Teólogo Biblista autor do Livro Los Enigmas de la Biblia


domingo, 23 de novembro de 2025

à procura de Adão e Eva



Os cientistas afirmam ter encontrado o nosso antepassado comum - uma mulher que viveu à 200 mil ano atrás e deixou genes "elásticos" que são hereditários por toda a humanidade. Os cientistas estão a chamá-la de EVA, mas com relutância. A Eva dos cientistas - assunto de uma das teorias antropológicas mais provocativas das últimas décadas - era uma mulher de cabelo escuro, cor escura, e não necessariamente a mais atraente ou maternal, mas simplesmente a mais fértil, se isso for medido pela publicidade de um certo tipo de genes. Parecem ser dela todos os seres humanos de hoje: mais de 6 mil milhões de familiares de sangue. Ele foi, numa estimativa aproximada, a sua 10.000ª bisavó.

Quando os cientistas anunciaram a sua "descoberta" da Eva, eles reacenderam o debate humano possivelmente mais velho: de onde é que viemos? Também, de alguma forma, confirmaram uma crença que existia muito antes da Bíblia. Versões da história de Adão e Eva datam de pelo menos 5 mil anos através e têm sido contadas em culturas desde o Mediterrâneo até ao Pacífico Sul e às Américas.

Os cientistas não afirmam ter encontrado a primeira mulher, mas meramente um antepassado comum - possivelmente um do tempo do surgimento dos homens modernos. O que é interessante acerca desta "Eva" é que ela viveu há 200 mil anos atrás. Esta data não somente transtorna os fundamentalistas (a Eva da Bíblia calcula-se que tenha vivido há 6 mil anos), mas também desafia a convicção dos evolucionistas de que a árvore genealógica humana começou muito mais cedo, pelo menos 1 milhão de anos atrás.

"Eva" tem provocado uma controvérsia científica amarga mesmo pelos padrões dos antropologistas. A implicação mais controversa do trabalho do geneticista é que os homens modernos não evoluíram lentamente e inexoravelmente em diferentes partes do mundo, como criam muitos antropologistas. A evolução do Homo sapiens arcaico para o moderno parece ter ocorrido somente num lugar, na família de Eva. Depois entre 90 mil e 180 mil anos atrás, um grupo de sua descendência deixou a sua terra natal dotado aparentemente com alguma vantagem especial sobre todas as tribos de humanos primitivos que encontraram. Ao vaguearem, os descendentes de Eva substituíram os nativos, estabelecendo eventualmente o mundo inteiro. Alguns antropologistas de "pedras-e-ossos" aceitam esta perspectiva da evolução, mas outros recusam-se a aceitar esta interpretação da evidência genética. Eles acham que o nosso antepassado comum deve ter vivido muito mais além no passado.

"Se esta descoberta for correta, esta ideia é extremamente importante", disse Stephen Jay Gould, o paleontologista e escritor de Harvard. "Faz-nos compreender que todos os seres humanos, apesar das diferenças nas aparências exteriores, são realmente membros de uma única identidade que teve origem bem recente num certo lugar. Existe uma espécie de fraternidade biológica que é muito mais profunda do que jamais percebemos."

Para descobrir "Eva", a geneticista Rebecca Cann teve de persuadir primeiro 147 mulheres grávidas a doarem as placentas dos seus bebés à ciência. As placentas foram o meio mais fácil de ter muitas amostras de tecido humano. Trabalhando com Allan Wilson e um biologista de Berkeley, Mark Stneking, Cann selecionou mulheres da América com antepassados da África, Europa, do Médio Oriente e Ásia. Os seus colaboradores na Nova Guiné e Austrália encontraram mulheres primitivas ali. Os bebés nasciam, as placentas eram reunidas e congeladas e depois postas num processo que resultou num líquido contendo ADN puro.

Este não era o ADN do núcleo das células dos bebés - os genes que determinam a maioria dos traços físicos. Este ADN vinha de fora do núcleo, num compartimento da célula chamado mitocôndria, que produz quase toda a energia para manter a célula viva. Os cientistas não sabiam que a mitocôndria continha qualquer gene até aos anos de 1960. Depois no fim dos anos 70 eles descobriram que o ADN mitocondrial era útil para traças as árvores genealógicas porque é herdado somente da mãe. Não é uma mistura dos genes de ambos os progenitores, como o ADN do núcleo, preservando assim um registo familiar que não é misturado em cada geração.

Todos os ADN dos bebés poderiam ser identificados com uma determinada mulher.

In Newsweek